domingo, 4 de outubro de 2009

O alicate de prata


Fotografia de Cristiano Mascaro

"O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não ensoberbece, não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade".
(Coríntios, XII-44)

Depois de um dia de trabalho exaustivo, Gilda chegara em casa. Trabalhava em uma loja de cosméticos. O emprego lhe caía como uma luva, já que era mulher de extrema vaidade. Vivia sozinha em um pequeno apartamento. Sua companhia era uma gata preta de olhos de vidro. Os homens já a decepcionaram há algum tempo. Acreditava que ainda poderia ser amada.
Naquela tarde, tudo parecia pesar: as nuvens cinzentas do céu, sua cabeça, seus olhos, seus ombros... todo o seu corpo! Atravessou a sala como um raio em direção ao quarto, o destino era as gavetas do armário do banheiro. Lá existem centenas de remédios, em especial aquele de caixa branca com letras enormes e uma tarja preta: Lexotan!
Vasculhou-as. Havia espalhado no chão um amontoado de coisas como: estojos e estojos de maquilagem, vários instrumentos de manicure e um alicate de unha de prata que ganhara de Maximiliano no Natal. Já fazia algum tempo que Gilda não o manuseava, pois preferia guardá-lo como que um retrato de Maximiliano.
Há um mês, desde que rompera o relacionamento, vivia com uma idéia fixa na cabeça. O sono já não fazia mais parte das suas noites, só se fosse acompanhado com copos e mais copos de suco de tomate com meia cartela de Lexotan.
Numa tarde, voltando para casa encontrou Maximiliano na floricultura da esquina. Escondeu-se atrás da pilastra para que ele não a visse. Saiu. Ela seguiu-o. Maximiliano entrou no prédio, mas não para o seu apartamento e sim para o da vizinha de dezoito anos.
Um tempo depois, Gilda descobrira que ele vivia em plena bigamia. Roupas, sapatos e os discos de bossa nova saíram voando pelo céu cinzento do décimo quinto andar. A vizinhança atenta acompanhava tudo... um espetáculo pirotécnico!
Encontrar o alicate de prata era sinônimo de encontro com o passado. Depois de tomar um copo cheio de suco de tomate, Gilda pegou o alicate. Agarrou-o com muita força causando um pequeno corte em sua mão. Olhou fixamente para a gata de olhos de vidro refletindo neles sua imagem triste e enfurecida.
Ficou à espreita de Maximiliano, não em seu quarto como de costume e sim no corredor do décimo quinto andar, no apartamento ao lado... o da menina de dezoito anos.
Ao ouvir o sinal do elevador, abriu a porta com uma violência indescritível. Olhar fixo em Maximiliano. Abordou-o segurando fortemente seu braço e como num golpe:
- O alicate de prata! Faltou te devolver. Jogou-o no chão.

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